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Filomena Rocha2022-02-01T09:52:26+00:00

25-5-1930 | 2-2-2013

A nossa Irmã vivia na comunidade de Gondomar e veio a falecer no Hospital de Santa Maria – Porto.

Nasceu na aldeia de Caxieira, freguesia dos Pousos onde foi batizada e crismada. Mais tarde esta paróquia foi desmembrada e foi criada a paróquia de Santa Eufémia onde ficou a pertencer, concelho, diocese e distrito de Leiria. Foi batizada a 9 de Junho do ano em que nasceu – 1930 – e recebeu o nome de Ermelinda. Os seus pais – Manuel José Rodrigues e Vitória Pereira Faria – eram profundamente cristãos e procuravam educar os 7 filhos que Deus lhes deu (sendo ela a mais nova) na Fé Cristã. Assim, recebeu os sacramentos de iniciação cristã muito nova.

Na sua adolescência e juventude continuou a sua formação cristã no movimento da Ação Católica e outros. Sentia-se atraída pela ação missionária. Costumava dizer que sentiu primeiro vocação missionária do que religiosa. Sempre afirmou: «Sou Religiosa porque sou Missionária e não Missionária porque sou Religiosa.»

Aos 14 anos foi acometida por uma febre tifoide. Na paróquia, os que foram atingidos com a mesma doença, todos morreram. Ficou apenas ela, graça que se deve (segundo o Padre Reis, Pároco na altura) à oração das Carmelitas de Fátima a quem ele a tinha recomendado para que mais tarde o pudesse ajudar nos trabalhos da paróquia. Por isso não aceitou de bom grado a sua partida para a vida religiosa.

Aos 15 anos fez o seu primeiro retiro começando o discernimento da sua vocação. Não punha de fora a hipótese de casamento mas não se sentia atraída…

Aos 19 anos, num outro retiro que fez, pediu a um sacerdote para a ajudar na escolha do caminho a seguir. Por sinal ele era grande amigo das Franciscanas de Calais – Padre Lopes.

Aos 20 anos fez voto de Castidade nas mãos do mesmo sacerdote.

Durante estes anos alimentou a ideia de se fazer missionária leiga, mas o mesmo sacerdote aconselhou-a dizendo que não seria o melhor. Ser Missionária dentro de uma Congregação Religiosa seria muito mais seguro para uma jovem. Foi por isso que escolheu uma Congregação Missionária juntando ao pedido de entrada o de missionária o que pela graça de Deus foi aceite.

Seus pais nunca se opuseram à sua decisão embora lhes custasse em virtude de ser a mais nova – esperança da sua velhice.

Aos 21 anos, em 8 de Agosto de 1951, deu entrada no Noviciado em Santa Cristina do Couto (Santo Tirso) e tomou hábito a 7 de Fevereiro de 1952.

No 2º Ano de Noviciado tirou o curso de enfermagem, a 11 de Fevereiro de 1954 fez a Profissão Temporária e a 11 de Novembro embarcou para Moçambique onde chegou a 4 de Dezembro do mesmo ano. Foi colocada na então nossa Comunidade do Bairro Indígena, um dos bairros mais pobres dos subúrbios de Lourenço Marques.

Após a chegada, logo no dia 5 começou a trabalhar num dispensário de puericultura confiado às Irmãs, trabalho de que gostou muito. Foram milhares de crianças que passaram por ela e que teve a alegria de ver crescer. Nesse mesmo Bairro, hoje paróquia de S. Joaquim, fez os votos perpétuos, no dia 11 de Fevereiro de 1957. Foi um dia cheio de calor humano manifestado por aquele povo da paróquia e alunos das escolas da Missão.

Em Agosto de 1963 foi-lhe pedido o serviço de responsável de Comunidade. Eram 13 Irmãs nessa altura.

Em 1966 um grande ciclone (Claude) caiu sobre Lourenço Marques. A casa das Irmãs, todas as estruturas da paróquia e o Bairro ficaram inundadas. Foram as Irmãs retiradas da casa pela tropa de engenharia, em barquinhos de borracha, e acolhidas pelas Missionárias de Maria na Munhuana.

As Irmãs trabalharam em condições muito precárias porque tiveram de improvisar locais pouco favoráveis, mas nenhuma Irmã abandonou o seu posto. Quando as águas baixaram e a casa foi reabilitada, as Irmãs regressaram à normalidade.

Ali ficou até 1967, ano em que abriu a nova comunidade na Missão de Mavila – diocese de Inhambane. Trabalho fascinante, verdadeiramente missionário, onde ficou até 1974. Veio depois para a paróquia do Aeroporto, em Lourenço Marques, voltando ao trabalho com as crianças no Dispensário.

Neste mesmo ano de 1974 dá-se a revolução do 25 de Abril. Com os confrontos das tropas portuguesas e da Frelimo, tiveram que se retirar para a nossa casa na Rua de Coimbra, um pouco mais no centro da cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo.

Muitas Irmãs não aguentaram as exigências da revolução e decidiram vir para Portugal. De 13 Comunidades que tinha a Região (já formávamos uma Região) ficaram apenas três. Maputo tinha 3 Irmãs portuguesas; Beira 2 portuguesas e duas nativas; Amatongas 1 portuguesa e duas nativas.

A Irmã Maria Vitória do Rosário, que sempre se tinha sentido como o peixe na água, iniciou uma vida mais dura. Ninguém obrigou ninguém a ficar. A Madre Geral (Mère Maria Alice) deu-lhes liberdade de opção.

Com a graça de Deus, mesmo correndo muitos riscos, nunca abandonou o local de trabalho. A insegurança era o maior dos riscos. Precisava de medir muito bem as palavras, quer políticas quer religiosas.

Experimentou a guerra bem perto e a carência de tudo. Comer pão era “luxo” nessa altura. Foram 3 meses sem migalha!… Quem conseguisse algum, partilhava com o vizinho…

Para a Irmã Maria Vitória, o mais doloroso era ver morrer a seus pés crianças com fome. Quanto sofrimento ouvir pedir pão a uma criança e nem ter migalha para dar! Só a promessa do Senhor “Estarei convosco até ao fim” lhes dava forças para prosseguir. «Não faltavam momentos de dúvidas, mas o povo simples dava-nos lições de confiança, sempre preocupados para que os não deixássemos sós» – partilhava a Irmã Maria Vitória, quando se referia a esses tempos passados da sua vida em Moçambique.

Assim se passaram quase 20 anos, mas novos dias vieram e teve a alegria de ver a “mudança”. Hoje Moçambique prospera e acreditamos que melhorará cada vez mais.

Nessa grande e, para ela, querida terra, pôde permanecer 54 anos, e no seu coração ficou sempre a melhor gratidão pelo muito que aprendeu daquele Bom Povo. Regressou a Portugal no dia 29 de Janeiro de 2009, mas jamais pode esquecer a Missão em Moçambique.

Integrada na Comunidade de Gondomar, trabalhou, enquanto as suas forças o permitiram, no atendimento às pessoas, na portaria e no telefone.

Após o Natal de 2012, devido ao seu estado de fraqueza e debilidade física, deu entrada no nosso Hospital de Santa Maria, no Porto, onde lhe foram ministrados com esmerado profissionalismo e calor humano, todos os cuidados que o seu estado de saúde requeria. 

Rogamos ao Senhor da Vida que a tenha recebido no seu Reino para o gozo pleno e eterno da presença do Seu Deus AMOR.

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